quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

SUCO DE UVA

Subo apressado a escada rolante. Não espero os degraus já acelerados para me dirigir até a próxima plataforma de baldeação do metrô.

Travo entre as pessoas e desisto da correria. O metrô estacionado apitava para partir. Partiu.

Duas pessoas a frente vejo as costas tatuadas de uma menina. Um coração com uma rosa no ombro e algo que não consegui identificar nas costas. o vestido escondeu. 

Delicada, passos leves que quase não tocavam o chão. Sandália fechada rasteira, pernas brancas, vestido cor coral de renda semi-coberto com um bolero branco. Ela mais branca, bem branca, quase transparente. Cabelo chanel bem cortado e negro. 

Quase que inconscientemente fui seguindo aquela moça. Sempre viajo no primeiro ou último vagão, é quase um toque. Ela seguiu até a ponta da plataforma, eu desacelerei e fui comboiando o flutuar dela. Vagão diante de nós, ela entra e se acomoda no único lugar vazio. Eu paro numa diagonal que me permite observar e ao mesmo tempo me esconder. 

Só nesse momento vi o rosto dela. Típica francesa. Olhos castanhos claros, lábios finos, sorriso leve... Unhas bem feitas no mesmo tom do vestido, assim como as pulseiras e brincos. Estilosa de gestos quase imperceptíveis. Na mão um suco de uva.

Durante algumas estações observei. Ela não tomava o suco, mordia o canudo e soltava sorrisos leves. Imaginei que estivesse ouvindo música, mas não. Ela olhava para baixo quase que marcando um ponto no infinito para mirar o olhar. Uma mulher ao lado percebeu essa hipnose dela e não parava de encarar a moça. 

Mordeu toda a ponta do canudo. tentou arrumar um espaço entre as mordidas para o suco passar e conseguiu. Deu ligeiras sugadas e quase nada do suco foi ingerido. Do nada ela levanta a cabeça e olha na minha direção. Assim como olhou voltou seu olhar para o ponto infinito e sorriu. O hipnotizado era eu.

Assim ficou durante algumas estações. Um lugar vagou ao lado do dela. Sentei e fiquei observando. Ela continuou determinada e fechada no seu universo. Ela abriu a bolsa, sacou um celular não muito dos modernos e fez uma ligação que não completou, desligou sem dizer nada. Na bolsa pude ver uma cartela de comprimidos, pareciam aspirinas, uma bolsinha menor e uma chave. 

Ela sorria do nada, sorriso leve, canto de boca e olhava o nada. Observei também até que percebi o quanto o tempo voou. Era minha estação. Desci correndo carregando a mochila, tripé, celular...

Ela ficou, se manteve inerte. Quando o trem partiu virou o rosto para a janela, não sei o que ela queria encontrar, se era eu ou se era o nada. Eu estava lá no pé da escada e o olhar me encontrou. Sorriu de leve e voltou para o suco de uva. 

4 Comentários:

Milla disse...

Uau!

Julia disse...

Como disseram no comentário acima: UAU….
Já comentei várias vezes aqui no seu blog, fazia tempo que eu não entrava. Estava sentindo falta desses textos mais poéticos que você escreve.
faça mais!!!

Anônimo disse...

Gostei
;-)

comprar seguidores instagram disse...

mto bom o blog

Postar um comentário

Seu comentário é muito importante e será liberado após moderação do autor deste blog.

O Mural está aqui

Prêmios

Contadores

free counters

Visitantes

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO